Chamada de trabalhos – primeira e segunda edições de 2026

A Políticas Culturais em Revista, publicação eletrônica da Rede de Estudos em Políticas Culturais, divulga a chamada de trabalhos para a primeira e segunda edições de 2026 (v. 19, n. 1 e n. 2) que, além de artigos científicos e resenhas sobre Política Cultural e temáticas correlatas, contará com os seguintes Dossiês temáticos:
Primeira edição de 2026
Políticas Culturais Sul-Sul
Editores responsáveis: Leonardo Costa (UFBA), Richard Haines (Nelson Mandela University).
As políticas culturais Sul-Sul representam um paradigma emergente de cooperação internacional baseado na horizontalidade, solidariedade e respeito mútuo entre países do Sul Global. Diferentemente dos modelos tradicionais de cooperação Norte-Sul, caracterizados por relações assimétricas e pela imposição de agendas externas, a cooperação Sul-Sul no campo cultural busca privilegiar o intercâmbio horizontal de conhecimentos, experiências e recursos entre países em desenvolvimento que compartilham desafios e contextos similares.
Este dossiê busca reunir reflexões teóricas, análises de experiências e estudos de caso que contribuam para o entendimento, fortalecimento e difusão das políticas culturais Sul-Sul. Interessa-nos compreender como essas iniciativas têm promovido a autodeterminação cultural, o fortalecimento de identidades locais e nacionais, e a construção de alternativas aos modelos hegemônicos de cooperação cultural internacional.
Eixos Temáticos
Convidamos submissões que abordem, mas não se limitem aos seguintes temas:
- Fundamentos teóricos e epistemológicos das políticas culturais Sul-Sul e suas contribuições para o pensamento decolonial e pós-colonial
- Experiências de cooperação regional: BRICS, Mercosul Cultural, UNASUL, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Cúpulas África-América do Sul e outras iniciativas
- Cooperação bilateral e trilateral em cultura entre países do Sul Global, incluindo parcerias com organismos multilaterais
- Redes e circuitos culturais construídos a partir da cooperação Sul-Sul: festivais, encontros de agentes culturais, residências artísticas, intercâmbios e plataformas colaborativas
- Diversidade cultural e diálogo intercultural como princípios orientadores das políticas Sul-Sul
- Autonomia epistêmica e cultural: estratégias de resistência aos modelos culturais hegemônicos e valorização de saberes locais
- Desafios contemporâneos: financiamento, coordenação institucional, superação de desigualdades e sustentabilidade das iniciativas Sul-Sul
- Impactos sociais e políticos da cooperação cultural Sul-Sul no desenvolvimento local e regional
- Indústrias criativas e economia da cultura sob a perspectiva da cooperação Sul-Sul
- Plataformas digitais e política cultural no Sul Global: regulação, soberania cultural e alternativas aos modelos hegemônicos das grandes empresas de tecnologia nos setores cultural e criativo
- Estudos comparativos entre diferentes modelos de cooperação cultural
Recebimento de artigos: prorrogado até o dia 31 de março de 2026, exclusivamente pelo sistema da Revista.
Previsão de publicação no primeiro semestre de 2026.
Segunda edição de 2026
Democratização da cultura e democracia cultural: Modelos de formação de públicos e práticas culturais no entrecruzamento de territorialização das políticas culturais
Editores responsáveis: Lia Calabre (FCRB), Ana Rosas Mantecón (Universidad Autónoma Metropolitana de México).
Nas políticas culturais latino-americanas se desenvolveram diversos modelos ideais de formação de públicos que, como assinalaram Pinochet e Güell (2018), convivem, competem ou se complementam em geral de maneira conflitiva. Há uma visão original que se centra na busca mercadológica de atrair mais visitantes, a qual se somam as propostas de democratização da cultura e a de democracia cultural.
De um modo geral, suas noções sobre os públicos são diferentes: a primeira os concebe como clientes, a segunda como receptores a serem educados e a terceira como participantes e sujeitos de direitos. Também diferem suas perspectivas de cultura: enquanto a mercantilização e a democratização da cultural priorizam a esfera da alta cultura, a democracia cultural atende às múltiplas expressões culturais de diversos setores sociais, não só o dos artistas. Esta última perspectiva nos aproxima da questão do território, do pertencimento, das identidades, lugar efetivo das trocas materiais e simbólicas, mesmo em tempos de plataformização da vida cotidiana.
Nas sociedades contemporâneas existem condições contraditórias para o impulso da participação cultural. Por uma parte, a digitalização mediática há favorecido o atenuamento das fronteiras entre autores e públicos, impulsionando novos canais de interação e participação para os agora prosumidores e “produsuários”. Por outra, o modelo de negócio das plataformas os restringe cada vez mais a seguidores de influencers e personalidades famosas. As pressões neoliberais de velho e novo cunho desconhecem seus direitos culturais de acesso, expressão e participação. Nesse sentido, a implementação de políticas culturais com base na premissa da democracia cultural recoloca no centro da cena a problemática da cidadania e do direito cultural.
A América Latina participou de diversas maneiras da discussão internacional sobre os modelos de formação de públicos. Como assinalou Pinochet, a cultura nessas paragens resistiu às lógicas binárias, admitindo diversos registros de cultura: arte de elite, folclore e patrimônio; e, desde meados do século XX, os círculos intelectuais se interessaram pelas culturas populares como uma expressão de autenticidade social. Além disso, o paradigma da democracia cultural adquiriu formas próprias através de lógicas de trabalho como a da animação sociocultural, dos anos 1970, ou com impulsos mais recentes como os dos Pontos de Cultura (Pinochet, 2024; Yúdice, 2019). Nessa virada para o século XXI a questão da Cultura Comunitária vem provocando o reposicionamento de muitas das bases sobre as quais se assentava a construção das políticas culturais.
Que desafios enfrentam na América Latina os diversos modelos de acesso à cultura? Que formatos desenvolveram e como foram se transformando? Que êxitos e fracassos obtiveram no combate às desigualdades no campo cultural? Quais os desafios teóricos e metodológicos encontramos ao tentar compreendê-los?
Recebimento de artigos: prorrogado até o dia 31 de maio de 2026, exclusivamente pelo sistema da Revista.
Previsão de publicação no segundo semestre de 2026.
Referências bibliográficas
Chaui, M. (2016) Uma opção radical e moderna: Democracia Cultural. Rubim, A. (Org.). Política Cultural e gestão democrática no Brasil. São Paulo. Ed. Fundação Perseu Abramo.
Hadley, S. (2021) Audience development and cultural policy. Palgrave Macmillian, Cham, Switzerland.
Santos, M. (2002) A natureza do espaço. São Paulo. Edusp.
Peters, T. (2023) La incesante brecha Políticas culturales y desigualdad en Chile. Santiago de Chile. Ediciones OPC.
Pinochet, C y Güell, P. (2017) Visitantes, audiencias, públicos Apuntes para un estudio desde las prácticas culturales, Atenea 518 II sem. 2018, pp. 151-166.
Pinochet, C. (2024) La cultura Descentrada Estudios sobre democracia cultural en Chile y América Latina. Santiago de Chile. Universidad Alberto Hurtado Ediciones.
Yúdice, George (2019) “Políticas culturales y ciudadanía”. Educaçao & Realidade, Porto Alegre, v. 44, n. 4, https://doi.org/10.1590/2175-623689221