Em Homenagem a Eduardo Winter
DOI:
https://doi.org/10.9771/cp.v19i3.74534Resumo
Professor Eduardo Winter: uma vida dedicada à ciência, à inovação e à pós-graduação brasileira
A Coordenação da Área Interdisciplinar da Capes (2026-2030) expressa, neste editorial, um especial agradecimento e presta sua mais profunda homenagem ao Professor Eduardo Winter, nosso querido Edu, cuja trajetória acadêmica e profissional se entrelaça com importantes capítulos da história recente da pós-graduação brasileira e, particularmente, com a expansão e a consolidação da Área Interdisciplinar.
Graduado em Química Industrial pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), mestre em Química pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Ciências pela mesma instituição, Eduardo Winter construiu uma sólida carreira acadêmica pautada pelo rigor científico, pela busca permanente do conhecimento e pelo compromisso com o desenvolvimento técnico-científico do país. Sua formação multi e transdisciplinar permitiu-lhe transitar com muita naturalidade entre diferentes campos do saber, característica que marcaria toda sua atuação profissional e também sua inserção política no campo da avaliação da pós-graduação.
Ao longo de sua carreira, dedicou-se especialmente aos estudos relacionados à Propriedade Intelectual, Inovação, Desenvolvimento Tecnológico e Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação, tornando-se uma referência nacional nesses temas. Sua atuação esteve profundamente vinculada ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), instituição da qual foi servidor desde 2006. Inicialmente lotado na Diretoria de Patentes, posteriormente passou a integrar a Diretoria de Articulação e Informação Tecnológica, desempenhando papel fundamental na estruturação e na consolidação das atividades de ensino e de pesquisa do Instituto. Sob sua liderança, o Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual e Inovação do INPI alcançou reconhecimento nacional e internacional, consolidando-se como uma das principais iniciativas brasileiras na formação de especialistas na área.
Além de sua atuação no INPI, exerceu atividades docentes e de pesquisa no Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam), contribuindo para a formação de mestres, doutores/as e pesquisadores/as. Em todos os espaços acadêmicos pelos quais passou, destacou-se pela suavidade no trato e pela capacidade de integrar diferentes áreas do conhecimento, de fomentar parcerias institucionais e de estimular a produção científica comprometida com os desafios da sociedade contemporânea.
Sua contribuição para a Capes iniciou-se ainda em 2010, quando assumiu, naquele triênio, a função de Coordenador-Adjunto dos Programas Profissionais da Área Interdisciplinar. Sim, sua consolidada experiência justificou a assunção desse importante cargo, mesmo sem ter atuado antes como consultor. Exerceu essa responsabilidade nos períodos de 2010-2012, 2013-2016 e 2018-2022, acompanhando o crescimento exponencial da Área e participando diretamente da consolidação dos programas profissionais no Sistema Nacional de Pós-Graduação. Em 2022, foi escolhido para exercer a Coordenação da Área Interdisciplinar, cargo que desempenhou até 2026, tendo sido reconduzido para um novo mandato (2026-2030) em reconhecimento à sua liderança e ao respeito conquistado junto à comunidade acadêmica.
Paralelamente, participou ativamente do Conselho Técnico-Científico da Educação Superior (CTC-ES) da Capes, tanto como membro titular quanto como suplente, e representou o Colégio de Ciências Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar em diversas discussões estratégicas relacionadas à avaliação e ao futuro da pós-graduação brasileira. Sua presença em comissões, grupos de trabalho e fóruns nacionais tornou-se sinônimo de equilíbrio, competência técnica e compromisso institucional.
Ao longo de mais de 15 anos dedicados à Área Interdisciplinar, desenvolveu um conhecimento profundo dos programas de pós-graduação distribuídos em todo o território nacional. Conhecia suas potencialidades, seus desafios e as especificidades, acompanhando de perto sua evolução por meio de seminários, visitas institucionais, reuniões de meio-termo, processos avaliativos, reuniões de acompanhamento e atividades de formação promovidas pela Capes.
Era um defensor intransigente dos Programas de Pós-Graduação Profissionais, compreendendo-os como instrumentos estratégicos para aproximar a produção científica das necessidades da sociedade, dos serviços públicos e dos setores produtivos. Da mesma forma, acreditava firmemente na necessidade de interiorização e de descentralização da pós-graduação brasileira, defendendo a ampliação das oportunidades de formação e de pesquisa nas regiões historicamente menos favorecidas pelos investimentos em ciência e tecnologia.
Sua atuação também foi marcada pela preocupação permanente com a promoção da diversidade e da equidade. Defendia a valorização das diferentes realidades regionais do país e estimulava a participação equilibrada de mulheres, pessoas negras, pessoas trans, povos indígenas e demais grupos historicamente sub-representados nos espaços de produção científica, avaliação e gestão.
Para ele, a excelência acadêmica era inseparável da pluralidade de perspectivas e da inclusão. Compreendia que uma comunidade científica verdadeiramente excelente somente pode existir quando diferentes trajetórias de vida encontram reconhecimento e condições de participação. Essa convicção não era apenas institucional; também dialogava, de forma serena e cuidadosa, com sua própria experiência de vida.
Como homem gay pertencente a uma geração para a qual a discrição muitas vezes foi uma estratégia de sobrevivência no ambiente acadêmico e profissional, Eduardo fez de sua identidade, sua presença, sua ética e seu compromisso com uma universidade mais plural uma afirmação silenciosa de que a excelência científica e a diversidade nunca estiveram em lados opostos. Para ele, a excelência acadêmica era inseparável da pluralidade de perspectivas, do respeito às diferenças e da inclusão. Na mesma medida, acreditava que mudanças apenas são possíveis quando se reconhecem os problemas e se criam condições e estratégias para a mudança.
A trajetória de Eduardo dialoga de perto com o pensamento de Paulo Freire, para quem ensinar exige respeito à autonomia e à dignidade de quem aprende, e para quem a educação verdadeira se constrói no encontro, no diálogo e na esperança compartilhada entre as pessoas. Paulo Freire[1] lembra que somos seres inacabados, em permanente processo de tornar-se, e é justamente essa inconclusão que nos convida à humildade e à escuta do outro. Eduardo parece ter vivido essa lição: ensinou sem impor, orientou sem constranger e liderou sem afastar, exercendo, no cotidiano da gestão acadêmica, uma pedagogia da presença e do cuidado que Freire tanto defendeu. Quando errou (todos erramos!) foi por não conseguir reconhecer, muitas vezes, seus limites. Característica comum a quem deseja sempre o melhor.
Nos anos mais recentes, tornou-se também uma voz importante na defesa da divulgação científica. Compreendia que a ciência somente cumpre plenamente sua missão quando seus resultados alcançam a sociedade. Por essa razão, trabalhou para incorporar a comunicação pública da ciência aos debates da Área Interdisciplinar e aos processos de avaliação dos programas de pós-graduação, fortalecendo a responsabilidade social da pesquisa brasileira.
Sua liderança era exercida sem grandes formalismos. Sempre acessível, acolhedor e disposto ao diálogo, mantinha contato próximo com coordenadores, docentes, discentes, consultores e equipes técnicas. Tinha a rara capacidade de ensinar sem impor, orientar sem constranger e liderar sem afastar. Sua inteligência extraordinária era acompanhada de uma generosidade igualmente extraordinária.
O legado de Eduardo Winter está presente nos tantos consultores/as que passaram pela Área nos últimos anos, mas também nos mais de 400 programas que compõem a Área Interdisciplinar, nas políticas que ajudou a formular, nos processos avaliativos que aperfeiçoou, nas instituições que fortaleceu e, sobretudo, nas inúmeras pessoas que tiveram a oportunidade de aprender com ele.
Sua partida representa uma perda irreparável para a Capes, o INPI, a comunidade científica brasileira e para todos aqueles e aquelas que compartilharam sua caminhada. Entretanto, sua obra permanece viva. Permanecerá nos Programas que ajudou a consolidar, nos pesquisadores/as que formou, nas instituições que fortaleceu e nos valores que defendeu ao longo de toda a sua trajetória. Estará também na memória daqueles/as que, encontrando nele uma presença íntegra e profundamente respeitosa, puderam reconhecer que há muitas formas de ampliar os espaços de pertencimento para pessoas LGBTQIA+ na ciência brasileira, inclusive pelo exemplo cotidiano de competência, dignidade e generosidade.
Eduardo partiu ainda muito jovem, mas em pouco tempo de vida construiu uma obra que muitas pessoas não alcançariam em décadas inteiras de trajetória. Diante dessa perda, cabe a nós também aprender com o luto: transformar a dor da ausência em memória viva e em compromisso renovado com os valores que ele tanto defendeu. Que o luto seja, assim, não apenas expressão de saudade, mas também um convite para a ação, a continuidade de seu legado e para a construção de uma pós-graduação brasileira cada vez mais plural, diversa e generosa, como ele sempre desejou.
Neste momento, a coordenação da Área Interdisciplinar (2026-2030) manifesta sua gratidão por uma vida dedicada à construção de uma pós-graduação mais forte, mais diversa, mais inovadora e mais comprometida com o desenvolvimento do Brasil.
Katia Christina Leandro - Fundação Oswaldo Cruz
Djalma Thürler - Universidade Federal da Bahia
Sandro Marcio Lima - Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul
Benedito Medrado Dantas - Universidade Federal de Pernambuco
[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
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