“Mulher trans, preta, brasileira e de periferia”
Entrevista com Mãe Bárbarah
DOI:
https://doi.org/10.9771/cgd.v12i2.71096Palavras-chave:
Candomblé, Entrevista, Gênero, Violência, Censo 2022Resumo
Ialorixá Barbarah é responsável por uma Igbasé (trata-se de um espaço religioso de candomblé, também referido como “casa” ou “casa de axé”) no município de Serra, no Espírito Santo. A entrevista semiestruturada foi realizada via Google Meet no dia 16 de junho de 2025 com duração de cerca de 1 hora. Após a divulgação dos dados preliminares do Censo 2022 sobre religião, observamos importantes análises sobre o aumento mais lento de evangélicos e a queda de católicos; alguns outros textos abordaram o crescimento da umbanda e do candomblé.
Mãe Barbarah apresenta-se como uma figura de profunda complexidade socioantropológica, cuja trajetória reflete as intersecções de classe, raça e gênero no Brasil contemporâneo. Autodefinida como mulher trans, preta, oriunda da periferia e atual Ialorixá de uma Igbasé no município da Serra, no Espírito Santo, a sua história é marcada por um intenso trânsito religioso e social. Tendo crescido em um ambiente evangélico pentecostal pautado por aquilo que descreve como “machismo” e pela violência familiar, viu-se forçada a romper com esse universo para assumir a sua identidade, enfrentando a marginalização e a prostituição como via de sobrevivência antes de encontrar amparo e reestruturação da identidade no candomblé. Distanciando-se de estereótipos, possui uma atuação plural: não retira o seu sustento da fé, é assistente social, historiadora, artista e ex-gestora de Igualdade de Gênero no governo estadual. Antropologicamente, destaca-se pela sua forte agência comunitária, transformando o seu espaço religioso em um polo de assistência social – visível no apoio a vulneráveis e na liderança do projeto de capacitação “Emprega Trans” – e atuando como uma força de reforma interna que combate a transfobia e o machismo nas tradições de matriz africana. A sua narrativa convida o leitor, portanto, a conhecer uma vivência de resistência que converteu a exclusão em políticas ativas de acolhimento e em uma teologia inclusiva.
O conteúdo da entrevista traz elementos que ajudam a discutir: a) identidade; b) religião enquanto espaço de intolerância e acolhimento; c) desemprego e prostituição de pessoas trans; d) candomblé: crescimento e demografia; e) intolerância religiosa; f) desmistificação; g) religião e projetos sociais; h) butinagem religiosa.
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